Todo o dia João levantava e abria a geladeira, penso que
esperava o milagre de coisas aparecerem do nada. Porém, isso não é um conto de
fadas, não começou com era uma vez, na verdade é a mais pura realidade.
Na geladeira que tem sua luz piscando, só existe duas
garrafas de água e um pratinho com um pedaço de carvão, dizem os mais velhos
que tira odor, coisa que não existe aqui, por não ter nada, é como se aquele
pedaço de preto naquele prato de vidro na cor marrom se mostrasse um amuleto,
um amuleto que seu dono espera que traga o alimento que não existe.
Com um suspiro ele fecha a porta e veste-se pronto pra sua
jornada.
O que João tem de especial para que eu conte sua história?
João é um catador de papelão como muitos outros, porém ele
não queria ser só isso.
Todos os dias ele percorre entre dez ou quinze quilômetros e
em todo trajeto, nenhum olhar em sua direção ganha, um homem de 30 anos, com
1,80 de altura não é fácil de não perceber, é com se João o catador de papelão
fosse um homem invisível.
Todos os dias faça sol ou faça chuva, João caminha por entre
a população, como um vulto, a noção do tempo não há ele simplesmente voa mas,
pouco importa horas e minutos não prendem esse homem ele não existe.
Cansado desses dias, os planos começam a permear sua mente
cansada.
- Se na hora de voltar eu pular do viaduto? Não, mesmo que
seja notado por um breve tempo da mesma forma seria esquecido mais rapidamente
que partisse dessa pra melhor. Se pudesse fazer algo...
Dias e dias se passaram e a cada passo dado empurrando ou
puxando a carriola cheia de papelão frases ressoam em sua mente, vários
questionamentos no fundo do consciente rebatendo no inconsciente.
- Se pudesse fazer algo... Mas o que fazer? Como fazer? Por
onde começar? Como mudar quem eu sou? Eu sempre fui assim? Não eu não sou
assim! Mas, como mudar pra melhor?
Sem sorte com seus pensamentos esse João chegou em casa e
como de costume bateu a mão no interruptor.
- Que droga! Esbravejou, sua luz fora cortada.
- Que droga! Esbravejou, sua luz fora cortada.
Num súbito frenesi, virou o sofá e um grito ecoou nos quatro
cantos dos seus enormes dois cômodos.
- Porque faz isso comigo? Naquele instante lembrou-se do que
sua mãe lhe dissera antes de morrer.
- João, meu menino o destino está escrito, não chore, nunca
chore, não se dê esse luxo, destino é destino.
- Eu preciso enganar esse tal de Destino! Começo então a
tramar João.
No escuro ele estava mas sua mente estava muito iluminada,
com um plano novo que brotava, levantou-se e foi até seu vizinho.
- Marcelo nunca lhe pedi nada e não é porque somos vizinhos
que tal direito. Porém passo por cima desse meu orgulho descabido e lhe peço
uma ajuda. Empresta aí um terno? Falou João sem ao menos esperar um boa noite
de quem lhe abriu a porta.
Atônito ficou esse tal de Marcelo, com a cara cansada de
quem trabalha na metalurgia , fitou para João e viu em seus olhos um brilho lá
no fundo, Marcelo reconhece o brilho da esperança, já o vira outras vezes.
- Posso ver o que tenho João entre!
Eles procuraram no guarda roupas velho, herança de família,
feito de madeira maciça e não encontraram nem ao menos uma gravata, Marcelo viu
aquele brilho de esperança no olhar do vizinho se extinguir como uma chama
vazia abafada por um copo, nessa hora ele viu o quanto era importante para João
uma simples vestimenta.
- João, vamos tomar um café, eu vou ao porão procurar nas
caixas velhas do Tio Laercio. João meio desanimado assentiu com a cabeça.
Enquanto o catador tomava em uma xícara de vidro marrom,
parecida com aquela que avós tem nas suas cristaleiras, uma fumaça suave saia
do liquido quente, e ele observava ela se dissipando e o cheiro acentuando da
bebida, que até começou a lhe dar novas esperanças. Entretanto nem pôde
terminar sua bebida, seus pensamentos foram interrompidos por Marcelo que subiu
do porão com um terno sobre o antebraço direito, e batendo com a outra mão
cansada de pedreiro pra tirar a poeira no terno que pelo jeito a muito tempo
estava guardado. Um sorriso nasceu entre as rugas daquele rosto tão triste e
cansado.
Amanheceu e nosso amigo nem viu aquele amuleto na geladeira
vermelha na cozinha pequena. Vestiu-se e saiu.
Por onde passou pode perceber que todos o observavam, ele
continuava seu caminho, buscando o habitual papelão de cada dia mas, uma
surpresa o espantou de tal modo que parou. Ele esperava um dia isso acontecer
porém nem no melhor dos pensamentos que acontecesse tão rápido.
-Moço você está bem? Eu só lhe disse bom dia e você ficou
pálido, algo de errado?
Com olhos marejados respondeu: - Sim estou ... Um bom dia
pra você também.
O jornaleiro lhe ofereceu um amplo sorriso e voltou aos seus
afazeres espanando as revistas expostas do lado de fora da banca.
João voltou a caminhar, mas, parou na primeira vitrine, viu
seu reflexo, João se viu, o mundo o viu, João agora era visível.
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